Gente nas janelas: solidão, cidade e o desejo de pertencer


Há um momento do dia em que a cidade muda de aparência. O sol desaparece, as ruas escurecem e, pouco a pouco, as janelas começam a se acender. Vistas de longe, parecem pequenos retângulos de luz espalhados pelos prédios. Mas cada uma delas guarda alguma coisa que não vemos.

Alguém prepara o jantar. Alguém termina um trabalho que já não lhe interessa. Uma mulher dobra uma roupa que pertenceu a outra pessoa. Um homem permanece alguns minutos diante do espelho. Uma criança faz a lição de casa. Um casal conversa. Outro já não conversa. Alguém espera uma ligação que talvez não venha.

De fora, vemos apenas a luz.

Lá dentro, entretanto, pode caber uma vida inteira.

A estranha solidão de viver cercado de pessoas

Uma das contradições mais características da vida urbana é que podemos estar permanentemente cercados de pessoas e, ainda assim, experimentar uma profunda sensação de isolamento.

Cruzamos dezenas ou centenas de desconhecidos em um único dia. Dividimos elevadores, calçadas, ônibus, escritórios, filas, restaurantes e corredores. Sabemos que essas pessoas existem, mas quase nada sabemos sobre elas.

No início do século XX, o sociólogo alemão Georg Simmel percebeu algo importante sobre essa experiência. Em seu ensaio A metrópole e a vida mental, ele analisou como a intensidade de estímulos das grandes cidades modifica nossa maneira de perceber os outros.

Para suportar a quantidade de informações, encontros, sons, movimentos e solicitações da vida urbana, desenvolvemos uma espécie de proteção emocional. Não podemos reagir profundamente a tudo.

Essa proteção é necessária.

Mas ela produz um efeito curioso: pessoas podem deixar de ser percebidas como histórias e passar a fazer parte apenas da paisagem.

A proximidade física não garante proximidade humana.

— ideia desenvolvida a partir de Georg Simmel, A metrópole e a vida mental

A cidade como lugar de passagem

Talvez seja por isso que tantos encontros urbanos sejam incompletos.

Vemos alguém entrando em um prédio e nunca saberemos para onde essa pessoa estava indo. Observamos uma mulher sozinha em uma mesa de café e desconhecemos o que aconteceu antes de ela chegar ali. Um passageiro senta-se ao nosso lado durante quarenta minutos e, quando desce, desaparece definitivamente da nossa vida.

São histórias sem começo e sem final.

O filósofo e crítico Walter Benjamin, ao estudar a cidade moderna e a poesia de Charles Baudelaire, interessou-se especialmente pela figura do flâneur: aquele que percorre a cidade observando suas ruas, multidões, vitrines e personagens.

O flâneur não atravessa simplesmente a cidade. Ele repara.

Existe uma diferença enorme entre caminhar por uma rua e realmente percebê-la. Quando o olhar desacelera, aquilo que parecia apenas movimento começa a revelar pequenos dramas humanos.

Quando uma janela deixa de ser apenas uma janela

Poucas imagens representam tão bem essa distância entre o que vemos e o que desconhecemos quanto uma janela.

A janela é uma fronteira delicada.

Ela permite enxergar, mas não permite compreender.

Vemos uma pessoa sentada diante de uma mesa, mas não sabemos se está trabalhando, escrevendo uma carta ou tentando reunir coragem para tomar uma decisão.

Vemos uma senhora diante de uma xícara, mas não sabemos quem deveria estar sentado na cadeira ao lado.

Vemos uma luz acesa às duas da manhã, mas ignoramos se ali existe festa, insônia, preocupação, nascimento ou despedida.

Talvez por isso a janela apareça tantas vezes na literatura. Ela permite que o observador permaneça exatamente no limite entre duas coisas: conhecer e imaginar.

Fernando Pessoa e o estranho mistério dos desconhecidos

Na poesia de Fernando Pessoa, especialmente através do heterônimo Álvaro de Campos, esse olhar para a cidade frequentemente conduz a uma inquietação existencial.

Uma rua, uma tabacaria, uma pessoa passando, uma janela ou um acontecimento aparentemente banal podem desencadear perguntas enormes.

Pessoa percebe algo desconcertante: cada desconhecido possui uma vida tão complexa quanto a nossa.

Isso parece óbvio quando formulado racionalmente.

Mas raramente vivemos como se fosse verdade.

Passamos por pessoas que amaram, perderam, desejaram, fracassaram, começaram novamente, tiveram medo, fizeram planos e enterraram sonhos.

Para nós, entretanto, elas permanecem durante alguns segundos apenas como “o homem do elevador”, “a mulher da janela”, “o motorista”, “a pessoa da mesa ao lado”.

Drummond e a solidão no meio da multidão

Também na poesia de Carlos Drummond de Andrade encontramos repetidamente a tensão entre indivíduo e coletividade.

Em obras como Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, aparece um sujeito que percebe sua própria solidão, mas que também tenta compreender seu lugar entre os outros.

É uma experiência profundamente moderna: ser apenas um entre milhões e, ao mesmo tempo, desejar que alguém perceba que somos únicos.

Talvez uma das maiores necessidades humanas seja justamente esta: não apenas existir, mas ser reconhecido em nossa existência.

Por trás de muitas formas de solidão existe exatamente essa sensação.

Não necessariamente a ausência de companhia.

Mas a ausência de reconhecimento.

Martin Buber: quando o outro deixa de ser parte da paisagem

O filósofo Martin Buber, em sua obra Eu e Tu, propôs uma distinção particularmente interessante para pensar essa questão.

Em algumas relações, encontramos o mundo como algo que observamos, usamos, classificamos ou atravessamos. Buber chamou esse modo de relação de Eu-Isso.

Mas existe outra possibilidade.

Às vezes, diante de outra pessoa, alguma coisa muda. Ela deixa de ser apenas uma função, um rosto ou uma presença anônima e aparece diante de nós como alguém verdadeiramente existente.

É o encontro Eu-Tu.

Talvez as cidades modernas nos obriguem a viver grande parte do tempo no primeiro modo. Não seria possível estabelecer uma relação profunda com todas as pessoas que encontramos.

Mas alguns instantes rompem essa anestesia.

Um olhar demora um pouco mais.

Alguém segura a porta do elevador.

Um desconhecido pergunta se estamos bem — e espera realmente a resposta.

Por alguns segundos, alguém deixa de ser parte da multidão.

Volta a ser gente.

O espelho escondido na janela

Há ainda um fenômeno mais curioso.

Quando observamos demoradamente a vida dos outros, muitas vezes começamos a pensar na nossa.

Perguntamos quem vive naquele apartamento e, sem perceber, começamos a perguntar quem vive dentro de nós.

Talvez aquela pessoa esteja sozinha.

E nós?

Talvez tenha abandonado um sonho.

E nós?

Talvez permaneça em um trabalho que já não lhe pertence.

E nós?

A janela torna-se, então, uma espécie de espelho.

Vemos os outros e, de repente, encontramos alguma coisa nossa refletida neles.

Cesare Pavese e as luzes distantes

O escritor italiano Cesare Pavese também explorou essa experiência de contemplar outras vidas a partir da própria solidão.

Em sua poesia aparecem noites, quartos, ruas e luzes distantes que sugerem pessoas vivendo em algum lugar fora do alcance do narrador.

Existe algo profundamente humano nesse gesto de imaginar a vida por trás de uma luz.

Talvez porque saibamos, mesmo sem dizer, que em algum lugar outra pessoa também pode estar olhando para nossa janela e imaginando quem somos.

O desejo de pertencer

Por trás de tudo isso talvez exista uma necessidade ainda mais elementar: pertencer.

Pertencer não significa necessariamente estar cercado de pessoas.

Significa sentir que nossa presença encontra algum lugar no mundo.

Que alguém conhece nosso nome.

Que nossa ausência seria percebida.

Que existe alguma mesa onde nossa cadeira não é indiferente.

É por isso que a solidão pode aparecer mesmo dentro de uma multidão e, inversamente, alguém pode estar fisicamente sozinho sem sentir-se abandonado.

O que procuramos talvez não seja apenas companhia.

Procuramos reconhecimento.

Procuramos vínculo.

Procuramos algum lugar onde nossa existência faça diferença.

Quantas vidas cabem numa rua?

Uma rua aparentemente comum pode conter centenas de histórias simultâneas.

Uma reconciliação acontece no terceiro andar.

Uma despedida, no quinto.

Alguém recebe uma notícia no térreo.

No prédio seguinte, alguém começa uma nova vida.

Mais adiante, uma pessoa simplesmente termina o jantar e apaga a luz.

Nada disso aparece no mapa da cidade.

Ainda assim, talvez sejam essas pequenas histórias invisíveis que realmente constituam uma cidade.

Prédios são feitos de concreto.

Cidades são feitas de gente.

Quando essas ideias se transformam em canção

Foi desse universo — das janelas acesas, das vidas paralelas, da solidão em meio à multidão e do desejo de ser reconhecido — que nasceu “Gente nas Janelas”, da Oficina Sonora Quietanto.

A canção transforma essas ideias em pequenas cenas.

No segundo andar, dona Lúcia borda enquanto observa a chuva. No oitavo, seu Augusto termina mais um projeto que não sente como seu. Dentro de um ônibus, alguém olha para cima e percebe as janelas como pequenas telas onde capítulos de outras vidas aparecem por alguns segundos.

Até que o vidro escuro do ônibus devolve ao observador o próprio reflexo.

“Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para pra ver?

Quantas solidões de vidro
esperando alguém aparecer?”

Gente nas Janelas, Oficina Sonora Quietanto

A música não pretende responder à pergunta.

Talvez baste fazê-la.

Ouça, baixe e conheça o projeto

Se este tema também lhe diz alguma coisa, convido você a ouvir a canção e conhecer a história completa.

🎧 Assista e ouça no YouTube:
Gente nas Janelas — Oficina Sonora Quietanto

🎵 Ouça e baixe gratuitamente no Palco MP3:
Gente nas Janelas no Palco MP3

🌿 Conheça mais sobre a Oficina Sonora Quietanto:
músicas, vídeos, letras e outros caminhos do projeto em:
https://linktr.ee/quietanto

Oficina Sonora Quietanto — Vozes que vêm de dentro.


Autores e obras relacionados ao tema

  • Georg SimmelA metrópole e a vida mental: indivíduo, estímulos urbanos e distanciamento na vida moderna.
  • Walter Benjamin — escritos sobre Charles Baudelaire e a figura do flâneur: cidade, multidão e observação da vida cotidiana.
  • Fernando Pessoa / Álvaro de Campos — poemas urbanos e existenciais, especialmente Tabacaria.
  • Carlos Drummond de AndradeSentimento do Mundo e A Rosa do Povo: indivíduo, coletividade, solidão e fraternidade.
  • Martin BuberEu e Tu: a diferença entre perceber o outro como objeto e encontrá-lo como presença.
  • Cesare Pavese — poesia e prosa marcadas pela solidão, pela observação e pela busca de pertencimento.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Liberdade e Responsabilidade: Os Pilares da Vida Humana

Superestimação de Esforço: Um Obstáculo Psicológico aos Nossos Objetivos

O Que Fazemos com o Que Lembramos