A arte de complicar a própria vida
Há uma ideia incômoda que atravessa boa parte da psicologia moderna: muitas vezes não sofremos só pelo que acontece, mas sobretudo pelas histórias que contamos sobre o que acontece. Entre o fato e a interpretação, abrimos um espaço onde cabem exageros, medos antigos, comparações e roteiros prontos – e é aí que a vida, que já é difícil, fica ainda mais pesada. Um dos caminhos mais comuns para isso é a idealização do passado. Editamos lembranças, tiramos as falhas, aumentamos as cores boas e, depois, usamos essa versão “refilmada” como régua para medir o presente. O resultado é quase sempre injusto: o agora, imperfeito e real, nunca vence uma memória cuidadosamente embelezada. Autores da psicologia cognitiva descrevem esse mecanismo como distorção seletiva: escolhemos o que lembrar e, em seguida, sofremos com a comparação que nós mesmos montamos. Outro mecanismo são as profecias autorrealizáveis. Espero ser rejeitado, então me antecipo: fico frio, defensivo, irônico, distante. O outro se...