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Mostrando postagens de 2026

A vida que ficou por viver

O que encontramos quando abrimos certas gavetas? Há objetos que permanecem anos no mesmo lugar sem incomodar ninguém. Uma carta guardada no fundo de uma gaveta. Uma passagem comprada e nunca usada. O telefone de alguém que continuamos levando de aparelho em aparelho, embora já não liguemos. Um caderno começado e abandonado. Uma fotografia que evitamos jogar fora, mas que também não deixamos à vista. Em algum momento, porém, basta abrir a gaveta. O papel amarelado já não é apenas papel. Ele devolve uma pergunta: quem eu teria sido se tivesse feito aquilo? A viagem não realizada, a conversa adiada, o amor do qual recuamos, a palavra que não dissemos — tudo parece adquirir uma estranha espécie de existência. Não aconteceu, mas deixou marcas. Talvez uma das descobertas mais desconcertantes da maturidade seja esta: nossa biografia não é formada somente pelo que vivemos. Também carregamos alguma coisa das escolhas abandonadas, das experiências evitadas e das versões de nós mesmos qu...

Gente nas janelas: solidão, cidade e o desejo de pertencer

Há um momento do dia em que a cidade muda de aparência. O sol desaparece, as ruas escurecem e, pouco a pouco, as janelas começam a se acender. Vistas de longe, parecem pequenos retângulos de luz espalhados pelos prédios. Mas cada uma delas guarda alguma coisa que não vemos. Alguém prepara o jantar. Alguém termina um trabalho que já não lhe interessa. Uma mulher dobra uma roupa que pertenceu a outra pessoa. Um homem permanece alguns minutos diante do espelho. Uma criança faz a lição de casa. Um casal conversa. Outro já não conversa. Alguém espera uma ligação que talvez não venha. De fora, vemos apenas a luz. Lá dentro, entretanto, pode caber uma vida inteira. A estranha solidão de viver cercado de pessoas Uma das contradições mais características da vida urbana é que podemos estar permanentemente cercados de pessoas e, ainda assim, experimentar uma profunda sensação de isolamento. Cruzamos dezenas ...